Monday, May 07, 2007

O Último Embondeiro - 27.04.2007 a 29.04.2007

Se existisse um lugar onde pequenas casas de alvenaria, alinhadas a regra e esquadro, se dispusessem comodamente numa pequena porção de espaço. Todas em fila, bordejando uma estrada de terra com pouco mais de cem metros. As árvores espalhar-se-iam por toda a parte, a natureza viva e fresca embrenhar-se-ia com os pedregulhos embotados e cinzentos. E se este cenário estivesse envolvido por um concha aberta de pequenas e mastodônticas montanhas, penedos e fragas, tudo coberto de um tenro verde, despoletando no visitante e habitante a sensação de que a natureza nos quer bem e jamais nos molestará. E se existisse um sítio assim…

Foi preciso caminhar muito para chegar. Mais de 250 km, sempre por estrada intransitável. Buracos e crateras, desvios e poças, pontes descaídas, leitos de rio a arar no centro da via, explicando-nos o que foi preciso transformar para que este planeta nos servisse. E á medida que avançávamos mais nos distanciávamos do escol civilizacional. Para onde vamos, a electricidade ainda não foi domada, os telefones buscam em vão o sinal das antenas, a imagem colorida do televisor tardará em se arrimar. Mas chegámos, e não é permitido esquecer a magia que se desenha na alma do Homem que chega ao fim do mundo, ao termo da história.

Os gigantes monolíticos unem-se como se de siameses se tratasse. São o notável resultado de uma excitante e geológica gestação. Fazem a meia elipse das duas mãos abertas juntas pelos punhos, prontas a amparar. Árvores baixas e outra vegetação rasteira trepam incansavelmente os íngremes penhascos, mas nenhuma se atreve a atingir o cume, ou, pura e simplesmente, talvez as forças não cheguem a tanto. E nós, quantas vezes, artilhados de cordas e calçado apropriado, mosquetões e arneses, vacilámos nos últimos metros da subida? E a camélia branca, da qual se diz ser a beleza perfeita, esperava-nos impávida e serena. Todavia, é ciência de todos, o que custa não é a primeira metade do caminho, são os últimos passos, as estopinhas secam, nem para trás nem para diante, e aí está o cabo dos trabalhos para consolar o alpinista, pois “fez tudo quanto podia”.

Na casa dos missionários, um dos empregados, Discípulo de seu nome, envergava duas camisolas de meia manga. O sol faz o pino, nem zéfiro à vista, nem gotícula preparada para mergulhar.

Passeámos por aquela viela desnivelada, pretendendo bom dia para toda a gente, cem metros para lá e os mesmos para cá. As casas coloniais dispõem-se em formatura disciplinada, respeitando algumas intrometidas de arquitectura mais recente. Os moçambicanos ainda estão penhorados pela betoneira lusa. Todas albergam serviços administrativos e poder local. Uma delas, com pouco mais de 30 m2, encerra o tribunal distrital. Cumpre a esta instância decidir as acções de valor reduzido e os crimes mais ligeiros. Pelo palácio da justiça escorrem o tempo do desleixo e do desprezo pela manutenção. Os salpicos de tinta sobejantes asfixiam agudamente e muito se batem para provocar a reacção das células de visão cromática, que nos concedem esse espumante luxo de vermos o mundo pintado. O juiz de distrito não tem, tal como, em regra, acontece no resto do país, o curso de direito. É, talvez, um homem de bom-senso, capaz de escrevinhar ou ditar sentenças. Terá certamente dificuldade em destrinçar o costume da lei, a tradição da equidade. Hoje injustiça, amanhã a solução equilibrada, como em qualquer digno Tribunal de Direito. Seja como for, não passou por aquela patologia pertinaz, fatal para os alunos da lei, que em muitos persiste até ao fim da vida, durante a qual, na fase aguda, só sabem que adoram Kafka e, numa perfunctória cavaca cafezeira, a expensas da fleuma dos interlocutores, dilatam-se com vocábulos mais onerosos do que o sucedâneo de caviar ou as ovas de sardinha enlatadas. Em suma, devem os moçambicanos também ficar gratos aos seus colonos por não terem sido capazes de dotar os mansos e submissos de instrumentos indispensáveis ao governo de um país. De modo que depois da debanda foi um vê se te avias como puderes, desde que nos convenhas. É esta perene lógica de vos trazer num simulacro frenético estagnante que, ontem e hoje, vos destrói. E a lástima é que vós pareceis respirar indulgência perante esse desígnio de copiosa iniquidade.

Na casa destes amigos, um dos funcionários, a quem chamam Discípulo, cobre-se com duas tee-shirts. O sol está alto e sobranceiro, nem brisa se pressente, nem humidade se avizinha.

Algumas pegadas depois, encontramos o Serviço Distrital de Educação, Juventude e Tecnologia de Lalaua. Segundo foi possível apurar, em todo o distrito, funciona um único computador... No muro do edifício, repousam alguns educandos, jovens ou técnicos, aguardando as benesses da luz, o primor da Internet, o servilismo vicioso do telemóvel.

Passamos pelo mercado, mini, conformando-se com o resto, no qual encontramos feirantes acomodados em cadeiras de porte ligeiro mas construção intrincada. Um tricô de canas de bambu, ponto de cruz, caseado à distância, todos esses emaranhados de fios e fiadas, embrenhados até tomarem a forma desse utensílio tão apreciado pelos cultores do descanso. Pelo seu aspecto tosco e a sua pobreza de material chamam-lhe, nestas paragens, Cadeira de Começar a Vida. Seria bom acreditar nesta filosófica e prospectiva designação, pois isso significaria que este assento pertence àqueles que almejam um futuro melhor. Bom seria, de facto, porquanto cada vez se apresenta mais árduo escavar e desencantar a materialização dos pilares necessários ao sustento de uma esperança condigna, que nos olha sem timidez e diz “Aqui me tens, ao serviço das tuas pernas e braços, ouvidos e boca, aqui estou eu, pronta a estimular indeterminadamente o teu coração”.

Num pequeno talhão cercado por estacas de madeira, jaz fenecida a campa de um régulo importante neste território. Ao seu lado erige-se uma árvore de corpo robusto, desfolhada, um desafio à estética. Representa a planta lenhosa mais excelsa das que caminham por este planeta. Se estamos na meta do mundo, na raia da história, é, provavelmente, o último dos embondeiros…

Neste reservatório da minha gratidão, um dócil homem, biblicamente nomeado Discípulo, usa o já mencionado duplo envoltório. O astro-rei resplandece com fôlego, nem aragem delicada, nem chuvisco prematuro se assoma.

Segundo o cálculo mais realista, terão morrido trinta milhões de negros só no transporte de escravos até aos locais onde era premente a sua precisão. É este o maior genocídio da história. Nem Incas, nem Astecas, nem Judeus nem outros que tal, ninguém se pode lamentar de tanta atrocidade como estes povos. Isto assim, esquecendo o relato das vidas dos sobreviventes, servos e seviciados durante gerações. Consta que muitos escravos comiam as próprias fezes para se suicidarem, pois na sua honra não cabia aquele enxovalho, contudo, nas suas forças também não entrava o poder da libertação. E se os pretos não tinham alma, por que motivo ela lhes doía tanto? A nós, descendentes do chicote e dos grilhões, cabe-nos, penso eu, recordar e amenizar os efeitos desta tortura. Todavia, por vezes, já não sei se legítima ou ilegitimamente, cruzamos os braços, fugimos do mais poderoso e destrutivo dos sentimentos, superior ao mais profuso amor materno e paterno, o poço onde explicamos quem somos, esse sentimento, ou essa, da qual havemos de falar um dia, noutros lugares, se a vida assim quiser, essa, a quem chamam Culpa. Não sendo castrando esse hábito de louvar os descobrimentos e o domínio sobre o mundo, havemos de reconhecer que quem herda os bens, herda os males, quem sucede nos direitos, sucede nos deveres, quem aceita os créditos, aceita as dívidas. E se nós, porventura, não devemos esquecer quem fomos, não podem estes viver perpetuamente atrofiados na vitimação inextinguível, que tudo justifica, a começar no ócio, mãe de todos os vícios, a acabar no ofício da mendicidade, pai da maior das humilhações. Levará tempo até que, aos olhos desta gente, eu perca a cor branca, e que eles, aos meus, se desfaçam da epiderme pardacenta. Todavia, já encetámos a longa caminhada.

“Ó Discípulo,” perguntou o Alberto, um bom amigo missionário, “por que é que anda com duas camisetes?”, inclinando para baixo a cabeça, “Ó Senhor Padre, é para não apanhar tanto Sol e ficar um pouco mais claro, como o Senhor Padre”.

4 Comments:

Blogger IM said...

Poderoso!

9:34 AM  
Anonymous Anonymous said...

Amigo João,
admirei-te e tenho-te ilogiado pelo espírito de missionário que te levou para essas paragens. Ao ler a tua bela prosa concluo que afinal tu foste por verdadeira paixão pelas coisas belas que vês em tudo.
António Rito

8:24 AM  
Anonymous Anonymous said...

Não há dúvida, o mais belo do mundo são as crianças. E as moçambicanas ainda mais.
E os presos, também, quando conseguimos ver-lhes a alma, pois lá também se esconde, muitas vezes esfarrapada, desgastada e maltratada, a "Beleza" que salva o mundo.
E ao ler-te também descubro em ti essa Beleza Inebriante que ilumina os teus olhos e te capacita, para A descobrires sempre à espera na primeira esquina do caminho.
J.S.Martins

11:49 AM  
Blogger ivones said...

Meu grande amigo joão...
Espero que te encontres em perfeita saúde e felicidade...nesse país dos diamantes do futebol!!!!!!!lol.
Agora que sei onde te encontar, mais vezes me encontrarás...

Tudo de bom,pois pessoas boas como tu, o merecem..

Os melhores cumprimentos de:
Ivo Campos(ivones) em directo de Nova Iorque

10:44 AM  

Post a Comment

<< Home