Monday, March 26, 2007

Ensaio Descarrilado Sobre a Doação - 28.09.2006 - 24.03.2007

I. Da Doação

Dar é, assim, este acto mágico e melódico, este elixir docemente perfumado, mediante o qual o que é de alguém passa a ser de outro. Dinheiro, um abrigo, uma coberta, um galo, um livro, um abraço, um beijo, um sorriso, uma aula de macua, enfim, tudo se dá. Um mero mas significativo acto translativo que, na sua modalidade mais radical, leva o doador a desfazer-se do seu Tempo.

II. Do Doador e da sua Motivação

Porque me sinto bem. Para ajudar quem recebe. Porque espero receber na volta. Porquanto a consciência me pesa. Pois se gosto do donatário! Pois se o amo!! Dou porque lamento o pobre. Foi assim que me ensinaram. Tenho muito e já não encontro onde pô-lo. Dou, afinal, não só mas sempre também para que os outros vejam que dou.

Por que damos? Qual é a força externa ou interna, pura ou maculada, espontânea ou repensada, qual é o mote poderoso que nos leva a dar?

Um maltrapilho, de pé boto, estritamente etilizado, trajando imundas calças de meia-perna, segue-me pela cidade, apoiado num pau sinuoso, “Patrão, dá mili! Estamos mali aqui, dá mili, patrão”. Cansado de o ouvir, incapaz de sentir um lamento pela sua condição, mas irritado com a sua presença, abri a carteira e pus-lhe 20 Mtn. nas mãos. Dei para que me não incomodasse mais.

Se ao menos o Homem não fosse tão apegado ao ter, tudo se interpretaria nos folhos da nossa essência, como se dar fosse tão-só o resultado de sermos como somos, um reflexo ontológico da nossa humanidade. Mas se o doador é tão valorizado pela sociedade, se o filantropo é aplaudido de pé, só devemos concluir que dar não faz parte de nós, é antes o nosso oposto.

Já que me desfiz, e não é pedir muito, ao menos que alguém o saiba e me dê o devido valor!

Certo dia, alguém se abeirou para me dizer o quanto necessitava de partilhar com o mundo um acto de bondade. Ter feito o bem por outro é reconfortante, mas se ninguém o sabe, nem tão-só o beneficiário, qual é o meu proveito? Quero, ao menos, ouvir um “fico-lhe grato”. Se te dou, sabe que te dou, ou melhor, sabei-o todos, para que possais avaliar quão generoso sou. A menos que também a outros devesse dar, pois, nesse caso, a doação fica só entre nós. Seja como for, haja alguém, para além de mim, consciente deste gesto tão notável.

Mandou Jesus, “Tu, porém, quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita, para que a tua esmola fique em segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará”. Na sua imensa genialidade, já adivinhava esta desconsolada necessidade do hominídeo topo de gama de propalar o próprio desprendimento. Lendo-nos, mandou-nos calar as doações. Silenciar perante os semelhantes, pois deus tudo vê e presencia, e assim sendo não necessitamos de soprar ao vento o perfume da nossa estética espiritual. Não nos solicita que combatamos o vício, lembra-nos somente a existência de um observador especial, cuja bondade deverá saciar a nossa fome de exteriorizar a nobreza do coração, há-de preencher este poluído desejo de sermos recompensados pelo bem que fazemos.

Vê além do que os olhos te permitem.

Quanto mais contrafazes essa necessidade de ser perante os alheios,
mais me confranges, Mais infame é essa empresa decadente.
Excita-se em mim o desprezo pelas máscaras que se apressam a cobrir-te o rosto,
confirma-se, sem reserva, O prejuízo da tua existência.

No Futuro, surgirá um Homem irrestritivamente diferente. Incapaz de fingir, preso à verdade e liberto por ela, olhará sem vergonha para os seus defeitos e permitirá que os demais se aproximem deles. Insatisfeito com quem é, buscará incessantemente a perfeição, mas não se esconderá atrás do falso cortinado bordado por quem dele espera. Em verdade, terminará pregado a uma cruz, apaixonar-se-á por uma rameira de S. Petersburgo, cavalgará, ensandecido, pelos campos manchegos, condenar-lhe-ão o estro à morte por lhe não ter corrido uma lágrima no funeral da mãe. Este, ou fado similar, será o radical termo da sua passagem por nós, mas a ninguém será legítimo desconhecer esse brilho especialíssimo, essa luz magnificente e deslumbrante, essa elevação superior, a humilíssima simplicidade de nunca ter escondido quem era.

Feliz daquele que pode dizer “dou-te, apenas, para de te ver sorrir”, pois esse é o São.

III. Do Donatário, Pedinte ou Recipiente

Saio ligeiro da casa agradável das responsáveis da organização Justiça & Paz, a qual está plantada no seio de um modesto bairro. Dois passos apenas e logo quatro crianças futebolistas me convocam “Tio, tio, tio, compra bola para nós, nós não tem bola.”. “Vocês não vêem que eu não tenho dinheiro. Também sou pobre.” “Então anda jogar com nós.”. “Não posso, tenho que ir trabalhar. Talvez trabalhando junte dinheiro para comprar uma bola e depois jogamos juntos.”. “Então, vem na sexta-feira para ver nós dançar e cantar.”. “Mas vocês dançam bem?”. “Nós dança bem. Muito até.”. “Bom, farei os possíveis.”. Rodeado de crianças, já não conseguia identificar a singularidade de cada rosto, limitando-me a uma visão de conjunto. Sinto algo a percorrer o braço, como uma pena leve e macia. Reparo então nos dedos comandados pela curiosidade de uma pequena criança, deslumbrada com a minha palidez. Fita-me embasbacada e passa a sua incrédula mão pela minha pele, tentando perceber onde termina a nossa diferença e começa a nossa semelhança. “Tio, fica aqui, fica aqui, com nós.”. Desta vez, não tive coragem de lhes dizer que não sou irmão do pai ou da mãe deles. “Não posso, a sério, não posso mesmo.”. “Então fala português, fala português com nós.”. “Português?! Mas nós estamos a falar português.”. “Não é este português, este não é bem. Nós quer o português de Portugal. Fala um pouquinho!”.

Estou em casa, aspirado pelo trabalho infinito. Tocam à campainha. Diz-me o Senhor Alberto que é para mim. Atendo um senhor de uma comunidade rural, do mato, a quem, há meses, ajudámos a recuperar a casa, comprando “parroti” e chapa zinco. Oferece-me uma galinha. Viva, ainda, mas atordoada pelas mais de três horas que já leva de patas para o ar. “Vinha dar lembrança, para levar para casa.”. “Fico-lhe muito agradecido, mesmo muito. Não tinha que se incomodar. E essa vida, como vai?”. “Agora, estou mali, mesmo mali, pá.”. “Então?”. “A minha casa voou, ficar sem tecto. Agora, nós vive em casa da mamã.”. “E a sua mulher?”. “Xiiii, estou mali, pá. Ela quer ir embora. Estou mali, aqui, pá.” “Então, e agora?”. “Eu precisa de comprar oleado. Com oleado já pode voltar a casa. Mas não tem condições de comprar. Estou mali…”, e baixou desalentadamente a cabeça, pousou os olhos no polido mosaico e posou para mim na sua desventura. Sentando à sombra de um sereno cajueiro, o nosso ancião pensava na solução deste bicudo problema. Sem tecto na casa, prestes a ficar sem mulher, prestes a ser remetido à casa da mamã. “Eu leva uma galinha ao mucunha e ele dá dinheiro para o oleado.”. E o mucunha lá acaba por ceder, “Pronto, tem aqui 200Mt. Compre o oleado e mande cumprimentos à sua mulher… ”. Mais tarde, a lâmina bidemsional seccionará o frágil pescoço do animal, que ainda viverá uns frágeis segundos depois da morte cerebral. O hábil executante conseguirá aproveitar o sangue quente de um incandescente vermelho, o qual em breve se misturará com o acre vinagre. Por tão-pouco, uns têm cabidela no prato, outros têm tecto em casa.

Estou prestes a cruzar a linha que separa a rua da composta casa dos combonianos. Um polícia fardado dirige-se a mim. Alto, esguio, de passo certo, sem chapéu. A face está um pouco padecente. Ponho-me a presumir o motivo por que se dirige a mim e traz plasmada no rosto a nítida intenção de me falar. Tosco sou por ainda presumir. Sendo a presunção esse raciocínio lógico que nos permite inferir o desconhecido do conhecido, pressuposto da operação é a ciência segura do facto instrumental. Contudo, neste lugar, a certeza é meramente conceptual, deambula perdida no plano das ideias de intrusos estrangeiros incapazes de percepcionar o fosso. “Boa tarde, como está, Sr. Polícia. Em que posso ajudá-lo?”, cumprimentei e perguntei. “É pá, estou mali. Num tenho jantari, tenho fomi. Dá qualquer coisa, patrão. Tenho fomi…”. Enquanto se desempenha da nobiliárquica tarefa de manter a segurança e a paz, zelar pelo cumprimento da legalidade, este distinto agente das forças policiais, fardado em conformidade com o regulamento interno, aproveita para pedir uma esmola ao branco.

Tendo ido levar um amigo ao seu lar, entrei num bairro de degredo e miséria. Chegados à sua porta, saio do carro. Os transeuntes reparam imediatamente na minha presença. É tão frequente a presença de um branco por ali como o são as chuvas de Julho. Olho em redor, contemplando uma vez mais o abismo entre a estação de onde parti e aquela a que me trouxe o comboio do sonho. Uma criança de dois anos, descalça, com a fatiota desmazelada e prenhe de nódoas, corre desalmadamente para mim, dirigindo-se a este espécime alvacento. Preparo-me para pegá-la ao colo e mostrar-lhe o meu afecto. Todavia, ela trava a marcha pouco antes de embater contra o meu corpo, fixa-me destemidamente, estende a mão pequena e carnuda, “Patrão, dá mili!”.

O ensaio, já descarrilado, e a teoria geral assim apresentada, tão facciosa e unidireccionada, têm mais pecados do que virtudes. Ficam para outra ocasião.

Quando aterrei neste país, trazia um peito assoberbado de putativa filantropia, vontade de dar tudo, desfazer-me da totalidade dos meus haveres. Libertar-me deste ter que me tornava imundo e indigno de respirar o ar pertencente aos pobres. Aos poucos compreendi os malefícios do dar desordenado e desregrado. A caridadezinha material mais não faz do que alimentar este vírus pútrido e destrutivo, a que se chama dependência, e que nos faz mendigos da consciência dos abonados, os quais, hipocritamente, encontram na esmola a leveza do espírito. Não queremos ver, ou fingimos não saber que a pobreza material é, amiúde, um mero efeito de uma outra lacuna mais profunda e de transmutabilidade duvidosa. Essa, a que assenta na estrutura volitiva de cada um, na sua atitude perante a vida, enfim, é a consequência de um espírito definhado, miserável, assombrado pela opressão passada e actual, por uma cultura de preconceitos e grilhetas, um medonho acomodamento ao mais ou menos e ao deixa andar. Dar a este pobre é, pois, mostrar-lhe o que ele não é por sua culpa e incendiar nele a revolta por isso.

E se vim a borbulhar de intenções doadoras, partirei deixando pouco. Quando regressar, sendo a mala a mesma, terei mais trabalho a fazê-la do que tive a desfazê-la. No final, todos saberemos, já o sabíamos, quem pediu a quem, mas estremeceremos quando percebermos quem recebeu de quem.

6 Comments:

Blogger IM said...

Deixo aqui um excerto de um livro que me deste há alguns anos…

“O Dom

Então um homem rico disse:
- Fala-nos do dom.
E ele respondeu:
- Dais muito pouco, Quando dais daquilo que vos pertence.

Quando vos dais a vós mesmos é que dais realmente.

Que é aquilo que vos pertence, senão coisas que conservais ciosamente, com medo de vir a precisar delas amanhã?

E amanhã, que trará o amanhã ao cão demasiado prudente que enterra os ossos na areia movediça enquanto segue os peregrinos a caminho da cidade santa?

E que é o medo da miséria, senão a própria miséria?

Quando o vosso poço está cheio,
não é o medo à sede que torna a vossa sede insaciável?

Alguns dão pouco do muito que têm, e fazem isso em troca do reconhecimento, e o seu desejo oculto corrompe os seus dons.

Outros têm pouco e dão tudo.
Estes são os que acreditam na vida, na bondade da vida; e o seu cofre nunca está vazio.

Há quem dê com alegria, e esta alegria é a sua recompensa.

Há quem dê cheio de dores, e essas dores são o seu baptismo.

Há ainda quem dê, inconsciente,
da sua virtude, sem nisso sentir dor nem alegria. Dão como os mirtos do vale que a espaços atiram para o céu o seu perfume.

É bom dar quando nos pedem; e é bom dar sem que nos peçam, como bons entendedores.

E para o homem generoso, procurar aquele que vai receber é maior alegria do que dar.

E haverá alguma coisa que possais conservar?
Tudo quanto possuís será dado um dia.

Portanto, dai agora, para que o tempo de dar seja vosso e não dos vossos herdeiros.

Muitas vezes dizeis:
- Gostava de dar mas só aos que merecem.

As árvores dos vossos pomares
não falam assim, nem os rebanhos das vossas devesas.
Dão para poderem viver, porque guardar é perecer.

Por certo aquele que é digno de receber os seus dias e as suas noites, é digno de receber de vós
tudo o resto.

E aquele que mereceu beber do oceano da vida merece encher a sua taça do vosso regato.

E que maior merecimento do que aquele que reside não na caridade,
mas na coragem e na confiança de receber?

E quem sois vós para que os homens
devam rasgar o peito diante de vós,
vencendo o orgulho, para poderdes ver o seu mérito a descoberto e a sua altivez manifesta?

Procurai primeiro merecerdes ser doadores e instrumentos de doação.

Porque, em verdade, é a vida que dá à vida, e quando julgais ser doadores, sois apenas testemunhas.

E vós que recebeis - e todos sois recebedores– não atireis para cima de vós o peso da gratidão, sob pena de impordes um jugo a vós mesmos e àquele que dá.

Mas elevai-vos juntamente com o doador, usando os dons como asas.

Porque ligar demasiada importância
à vossa dívida é duvidar da sua generosidade, que tem por mãe a Terra magnânima e Deus como Pai.”

Khalil Gibran in “O Profeta”

4:21 AM  
Anonymous Anonymous said...

Caro João
Como constatas e todos os que andamos nestas paragens constatamos, o dar e o receber têm muito que se lhe diga. Raramente as coisas são lineares para nós mortais. Mas houve alguém que nos deu o exemplo de quando, como e a quem devemos dar e de quem devemos receber. Por isso, não resisto a deixar aqui 3 citações desse grande mestre em "doação". Nele não nao havia caminhos embiozados nem esperança de recompensa. É com ele que temos de aprender sempre:

"a minha vida ninguém ma tira, sou eu que a dou livremente. Eu vim para que tenham Vida e a tenham em abundância" JC

"Dai e vos será dado; será derramado em vosso regaço uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante, pois com a medida com que medirdes sereis medidos também" JC

"Aquele que acha a sua vida, vai perdê-la, mas quem perde a sua vida por causa de mim, vai achá-la"
JC

E creio que é já muito!

JM

2:14 PM  
Anonymous Vuck said...

Meu querido amigo, folgo em saber que te encontras bem apesar de imerso na infinita miséria que te rodeia. Ao ler o teu post lembrei daquele velho ditado português "quem não chora, não mama"...

Forte abraço e saudades
Hugo

4:37 PM  
Blogger MC said...

Uma vez li isto não sei bem onde, nem qaundo, mas parece-me apropriado..."Se fizeres um favor, não o recordes; se receberes um favor, nunca o esqueças."

Bjinhos

P.S. Jon, dá mili...

1:42 PM  
Anonymous Anonymous said...

Rosário Mário
romama@live.com

agradecia... a tua comunicação

1:31 AM  
Anonymous Anonymous said...

li os teus textos na revista audácia,achei-os interressantes pois enqudram-se na realidade do quotidiano Moçambicano..........

romama@live.com

1:36 AM  

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